Sendo especialista em segurança institucional e proteção de autoridades, Ernesto Kenji Igarashi destaca que um profissional com vinte anos de estrada não erra por não saber. Erra por confiar demais no que sabe. Essa é a parte incômoda dos vieses cognitivos: eles não atacam o iniciante distraído, atacam justamente o experiente seguro de si, no exato momento em que a pressão sobe e o tempo encurta.
O cérebro humano não foi feito para operar planilhas de risco. Foi feito para sobreviver, e sobreviver exige decidir depressa com dados incompletos. Esses atalhos salvaram nossos antepassados e continuam úteis na maior parte do tempo. O problema aparece quando a mesma velocidade que protege em um assalto engana em uma análise de ameaça que pedia calma.
Entender esses mecanismos não elimina o erro. Mas transforma um profissional que erra sem perceber em um que reconhece o próprio ponto cego a tempo. E, em segurança, esse tempo é tudo.
Por que a experiência não protege contra o erro?
A experiência traz um paradoxo intrigante. À medida que uma pessoa acumula casos, seu cérebro se torna mais confiante em identificar padrões, questionando cada vez menos se aquele padrão se repete na situação atual. O profissional experiente tende a agir de forma automática, acreditando que já viu aquilo antes. Muitas vezes, ele acerta, o que reforça esse comportamento habitual e aumenta sua confiança. Ernesto Kenji Igarashi observa que, mesmo quando a situação parece similar às anteriores, pode haver uma diferença crucial que não é considerada.
É por isso que o erro por excesso de confiança costuma ser mais perigoso que o erro por inexperiência. O iniciante desconfia de tudo e confere duas vezes. O experiente, seguro, pula a checagem justamente onde ela faria diferença.
O viés de confirmação dentro de uma operação
O viés de confirmação é a tendência de procurar informação que confirma o que já acreditamos e ignorar a que contraria. Numa operação, ele age de forma sutil: a equipe decide que determinada pessoa é a ameaça e, a partir daí, cada gesto dessa pessoa vira “prova”, enquanto o comportamento suspeito de outra passa despercebido. Ernesto Kenji Igarashi aponta que esse viés é especialmente traiçoeiro porque dá à equipe a sensação de estar sendo vigilante, quando, na verdade, está apenas confirmando a própria hipótese inicial.

O que são vieses cognitivos na tomada de decisão?
São desvios sistemáticos de julgamento causados por atalhos mentais: o cérebro simplifica a realidade para decidir rápido e, no processo, distorce a avaliação de risco de forma previsível, mesmo em profissionais treinados.
Previsível é a palavra que importa. Como o desvio segue um padrão, ele pode ser antecipado. Uma equipe que sabe que vai tender a confirmar a primeira hipótese pode criar o hábito de nomear, em voz alta, a hipótese contrária: e se não for essa pessoa? Essa pergunta simples reabre o campo de visão que o viés havia fechado.
O excesso de confiança e a armadilha do “já resolvi isso mil vezes”
A rotina é inimiga silenciosa do julgamento. Quando um procedimento dá certo muitas vezes, ele deixa de ser avaliado e vira reflexo. Ernesto Kenji Igarashi nota que operações repetidas sem incidente por muito tempo criam uma falsa sensação de controle, e é nesse conforto que o próximo erro se instala, porque ninguém mais está realmente prestando atenção, apenas executando de memória.
O perigo do reflexo é que ele não avisa quando está errado. Ele entrega a mesma resposta de sempre para uma pergunta que, desta vez, era outra; como já funcionou tantas vezes, ninguém pensa em questioná-lo até que o resultado saia diferente do esperado.
O inimigo mais difícil de proteger é o próprio julgamento
Toda a formação em segurança ensina a enxergar a ameaça do lado de fora. Poucos falam da ameaça que mora do lado de dentro da própria cabeça. Ernesto Kenji Igarashi conclui que o profissional maduro não é o que confia mais no próprio instinto, é o que aprendeu a desconfiar dele na hora certa. Reconhecer que o julgamento pode falhar não é fraqueza: é, provavelmente, a competência mais avançada que alguém pode desenvolver na área.
